O NEGÓCIO MILIONÁRIO POR TRÁS DO CONTRABANDO DE MIGRANTES PARA OS EUA

Números de entradas irregulares nos EUA e mortes de migrantes na fronteira com o México bateram recordes em 2022. Migrantes estão cada vez mais vulneráveis à violência do crime organizado, alertam especialistas


Publicado em 15 Janeiro 2023

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O NEGÓCIO MILIONÁRIO POR TRÁS DO CONTRABANDO DE MIGRANTES PARA OS EUA

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Enquanto o presidente dos EUA, Joe Biden, viajava na noite de domingo, 8 de janeiro de 2022, de El Paso, Texas, para a Cidade do México, 10 pessoas foram resgatadas por membros do Instituto Nacional de Migração. Devido às fortes correntes de água, ficaram encalhados nas pedras do Rio Grande, ao tentar cruzar a fronteira com os Estados Unidos.

Apesar do endurecimento das políticas de imigração e das recentes medidas dissuasivas anunciadas por Biden e seu homólogo mexicano, Andrés Manuel López Obrador, milhares de pessoas continuam tentando todos os dias chegar aos EUA.

 

“Os fatores de pressão que forçam os migrantes a deixar suas casas são muito mais fortes do que qualquer tentativa de dissuasão. A fome, a ameaça de grupos criminosos ou governos repressores continuam existindo e são mais fortes do que qualquer barreira”, diz Adam Isacson, encarregado de questões de segurança de fronteira do centro de pesquisa WOLA sobre direitos humanos nas Américas.

 

Milhões por ano para criminosos

 

De acordo com o relatório de 2022 da Força-Tarefa de Ação Financeira (GAFI), um órgão intergovernamental contra a lavagem de dinheiro e outros crimes, dois terços das pessoas que cruzaram irregularmente do México para os EUA em 2019 foram “guiadas ou acompanhadas por contrabandistas de migrantes. O resultado: um negócio milionário.

 

O Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) estima que cerca de 6,75 bilhões de dólares são gerados em duas das principais rotas de contrabando de migrantes, da África para a Europa e da América do Sul para a América do Norte.

 

Segundo um estudo do Conselho Nacional de População do México, os migrantes podem pagar entre 5.000 e 9.600 dólares por sua passagem naquele país e outros 2.200 dólares para atravessar a fronteira acompanhados de um guia.

 

México e Colômbia, dois passos cruciais

 

"O tráfico de pessoas era uma atividade realizada pelos 'coiotes', mas com o tempo, grupos do crime organizado descobriram que os migrantes poderiam ser uma fonte de renda", diz o consultor de segurança David Saucedo, em entrevista à DW México.

 

Isacson acrescenta que os grupos do crime organizado, por sua vez, dependem de seu relacionamento com agentes estatais corruptos. “Em quase todas as partes da fronteira, o migrante ou seu 'coiote' tem que pagar aos grupos do crime organizado um 'piso' ou direito de trânsito, e esses grupos pagam subornos aos agentes do Estado. Muitos poucos migrantes conseguem fazer a viagem sem a participação do crime organizado”, conclui o especialista em segurança de fronteiras.

 

O cartel de Sinaloa, o cartel de Jalisco e os Zetas são alguns dos responsáveis ??pelo tráfico de migrantes. Segundo Saucedo, na cidade mexicana de Juárez, são frequentes os confrontos entre os Mexicles (braço armado do cartel de Sinaloa) e La Línea, (que trabalha com o cartel de Juárez), para capturar a gestão das caravanas migratórias.

 

Na Colômbia, o quadro não é muito diferente. Segundo Jeremy McDermott, diretor na Colômbia do centro de estudos de segurança InSight Crime, existem duas organizações por trás do contrabando de migrantes no país: o Tren de Aragua, uma mega-gangue que lida principalmente com migrantes venezuelanos, e os grupos de autodefesa Gaitanistas ou Clã del Golfo.

 

Vítimas de organizações criminosas

 

“Os migrantes são extremamente vulneráveis ??à exploração e recrutamento pelo crime organizado. A violência de gênero é generalizada, assim como a extorsão e o roubo", explica McDermott à DW. Somente entre abril de 2021 e maio de 2022, Médicos Sem Fronteiras tratou 420 mulheres e homens por casos de violência sexual durante sua passagem por Darién.

 

No México, segundo Saucedo, há diferenças entre os riscos de acordo com as nacionalidades. “Com os mexicanos, o que esses grupos querem é ter uma renda, então eles os deixam passar porque sabem que irão e voltarão duas ou três vezes por ano”. No entanto, “os centro-americanos, cubanos ou haitianos, que dificilmente retornarão ao México, são mais frequentemente vítimas de outros crimes, como exploração sexual e sequestro para fins econômicos ou para trabalho escravo”, diz ele.

 

Isacson garante que, de acordo com as informações coletadas pelo WOLA, no caso do trânsito pela América Central, "sequestros ou outras agressões violentas não são tão frequentes", mas sim "subornos por parte das autoridades".

 

Números recordes de migração e mortes

 

Segundo registros do Departamento de Segurança dos EUA, o país fechou 2022 com números históricos de migração irregular. As patrulhas de fronteira relataram uma média diária de 6.300 encontros com migrantes indocumentados por dia no ano fiscal de 2022 (até setembro). O UNODC estima, no entanto, que as entradas irregulares anuais nos EUA cheguem a 3 milhões: mais de 8.200 pessoas todos os dias.

 

As mortes de migrantes que cruzam a fronteira também atingiram recordes históricos, com 830 somente no lado dos EUANas estatísticas do projeto "Missing Migrants" da Organização Internacional para as Migrações (OIM), no ano passado foram 521 mortes e desaparecimentos na fronteira EUA-México e 195 na rota de Cuba para os EUA.

 

O relatório indica que a violência em trânsito é a segunda causa mais comum de morte na passagem pelo México, respondendo por mais de 10% do total de mortes e desaparecimentos de migrantes registrados desde 2014 nas Américas.

 

Mas, na opinião de David Saucedo, o impacto do contrabando de migrantes e da violência que sofrem é difícil de medir se considerarmos que não têm confiança para denunciar porque eles próprios estão a cometer um crime e correm o risco de serem deportados. E a isso se soma a corrupção das instituições do Estado: “Muitos membros do Instituto Nacional de Migração estão com as redes de tráfico, então uma denúncia a eles é uma sentença de morte”.

 

O escritório de advocacia especializado em imigração para os EU, Witer, Pessoni & Moore an International Law Corporation alerta para todos estes riscos e acrescenta que muitas das pessoas que fazem uso destes meios para imigrar para os EUA, desconhecem as formas legais e a infinidade de tipos de vistos que o país disponibiliza. Muitas destas pessoas têm perfil para fazer uma imigração legal e, muitas das vezes, por um valor bem menor do que é pago aos traficantes, e é claro, sem o risco de morte que acompanha a travessia ilegal.

 

Witer, Pessoni & Moore an International Law Corporation

Colaboração: www.laopinion.com

 

OBS.: O propósito deste artigo é informar as pessoas sobre imigração americana, jamais deverá ser considerado uma consultoria jurídica, cada caso tem suas nuances e maneiras diferentes de resolução. Esta matéria poderá ser considerada um anúncio pelas regras de conduta profissional do Estado da Califórnia e Nova York. Portanto, ao leitor é livre a decisão de consultar com um advogado local de imigração