
O verdadeiro problema não é a nacionalidade, mas o propósito da viagem.
É comum ouvir a afirmação de que “está cada vez mais difícil para brasileiros conseguirem visto americano”. Embora o cenário consular tenha, de fato, se tornado mais rigoroso nos últimos anos, especialmente após 2025, essa percepção muitas vezes não reflete a realidade jurídica do processo.
Do ponto de vista legal, o Brasil não é classificado pelos Estados Unidos como um país de alto risco migratório. Isso significa que, em tese, cidadãos brasileiros não enfrentam presunções negativas automáticas no momento da análise consular. O fator decisivo continua sendo o mesmo previsto na lei de imigração americana: o propósito da viagem e a capacidade de comprová-lo.
O papel central do INA § 214(b)
A maioria das negativas de vistos de turismo, estudo ou negócios ocorre com base no INA § 214(b), que presume que todo solicitante de visto não imigrante é um potencial imigrante até que prove o contrário. Em termos práticos, isso significa que o solicitante deve convencer o oficial consular de três pontos fundamentais:
- Qual é o objetivo específico da viagem
- Que esse objetivo é temporário
- Que existem vínculos reais e verificáveis fora dos Estados Unidos
Quando esses elementos estão claros e bem documentados, as chances de aprovação são significativamente maiores.
Quem normalmente não tem dificuldade
Historicamente, brasileiros que se enquadram nos seguintes perfis tendem a ter processos mais tranquilos:
- Estudantes com matrícula válida (visto F-1)
- Pais de brasileiros legalmente estabelecidos nos EUA
- Profissionais ou empresários com viagens justificadas por contratos, eventos, treinamentos ou negócios
- Pessoas com histórico consistente de viagens internacionais
Nesses casos, o propósito da viagem costuma ser objetivo, verificável e coerente.
Onde surgem os problemas
As maiores dificuldades aparecem quando:
- O objetivo da viagem é genérico (“turismo”, “conhecer”, “ver oportunidades”)
- Não há documentação compatível com o que foi declarado
- O perfil etário, profissional ou financeiro não conversa com o plano apresentado
- O solicitante não consegue explicar claramente o que fará, por quanto tempo e por quê
Nessas situações, o problema não é o passaporte brasileiro, mas sim a fragilidade do propósito apresentado.
O impacto do cenário pós-2025
Desde janeiro de 2025, a análise consular tornou-se mais imprevisível em alguns aspectos. Ainda assim, isso não elimina o critério central da lei: propósito claro, temporariedade e vínculos externos. O que mudou foi o nível de exigência na coerência do discurso e na prova documental.
A pergunta “por que é tão difícil para brasileiros conseguirem visto americano?” geralmente revela mais sobre o caso individual do que sobre o sistema como um todo. Na grande maioria das vezes, a negativa decorre da incapacidade de demonstrar, de forma clara e convincente, um propósito legítimo e temporário.
Em imigração americana, não basta querer viajar. É preciso saber exatamente por que, para quê e como provar isso juridicamente.





