Por Witer DeSiqueira
26 de agosto de 2026
Categoria: Imigração, Religião e Sociedade
Palavras-chave: TPS, El Salvador, Igreja Adventista do Sétimo Dia, SDA, imigração, deportação, liberdade religiosa, ADRA, administração Trump

97 organizações religiosas. 174 líderes religiosos. Uma ausência que chama atenção.
Em 21 de agosto de 2026, um amplo grupo de organizações religiosas e líderes de fé dos Estados Unidos enviou uma carta ao presidente Donald Trump, ao secretário de Estado Marco Rubio e ao secretário de Segurança Interna Markwayne Mullin, pedindo ao governo que prorrogasse o Temporary Protected Status — TPS — para El Salvador.
A carta original é bastante precisa ao identificar quem apoiou a iniciativa:
97 organizações religiosas e 174 líderes religiosos individuais.
Isso representa 271 signatários registrados.
Eles vieram de diferentes tradições teológicas e de segmentos muito distintos da vida religiosa americana. Bispos católicos, padres e religiosas aparecem ao lado de episcopais, metodistas, presbiterianos, menonitas, membros da United Church of Christ, universalistas unitários, quakers, representantes judeus, um líder muçulmano e outras vozes religiosas.
Mas, após a análise do documento completo, com 17 páginas, uma importante denominação americana não aparece de forma identificável entre os signatários:
A Igreja Adventista do Sétimo Dia.
As palavras “Adventist”, “Seventh-day” e “ADRA” não aparecem em nenhum ponto do documento publicado com os signatários.
Isso é um fato. O significado desse fato merece atenção.
O que está acontecendo com os beneficiários salvadorenhos do TPS?
Não estamos falando de um debate envolvendo algumas centenas de recém-chegados.
Aproximadamente 170 mil cidadãos de El Salvador que vivem nos Estados Unidos possuem atualmente TPS, segundo o número citado pela OSV News com base em dados do Congressional Research Service. A designação atualmente em vigor está prevista para expirar em 9 de setembro de 2026. Muitas dessas pessoas vivem nos Estados Unidos há anos ou até décadas.
A carta dos líderes religiosos enfatiza que alguns beneficiários salvadorenhos do TPS chegaram ao país ainda crianças, construíram carreiras, casaram-se, tiveram filhos cidadãos americanos e estabeleceram suas vidas em comunidades nos Estados Unidos.
Os signatários argumentam que as condições atuais em El Salvador continuam apresentando preocupações humanitárias significativas. A carta menciona medidas prolongadas de estado de emergência, detenções, preocupações relacionadas ao devido processo legal, alegadas violações de direitos humanos e as dificuldades de reintegração de um número muito elevado de pessoas que poderiam ser repentinamente devolvidas ao país.
Concordar ou não com todas as conclusões políticas apresentadas na carta é uma questão distinta. Mas há pouca dúvida sobre o que os signatários fizeram:
Eles assumiram publicamente uma posição.
Colocaram seus nomes e suas instituições ao lado dela.
E isso nos leva à Igreja Adventista
A ausência de uma assinatura adventista torna-se especialmente interessante porque a imigração não é uma questão política distante e sem relação com o adventismo. Ela afeta congregações adventistas neste exato momento.
Em reportagens publicadas em 2026, veículos adventistas relataram grande incerteza migratória dentro da Lake Union, cuja membresia superior a 90 mil pessoas inclui milhares de indivíduos diretamente afetados, ou com familiares afetados, por questões relacionadas ao status migratório.
A própria reportagem discutiu especificamente o Temporary Protected Status e identificou El Salvador como um dos países com grande número de beneficiários do TPS. Portanto, essa questão não está acontecendo do lado de fora das igrejas adventistas.
Algumas das pessoas preocupadas com o TPS estão sentadas dentro dessas igrejas.
A Igreja Adventista já se manifestou sobre imigração
Seria incorreto afirmar que a Igreja Adventista nunca ajudou imigrantes ou refugiados.
Em 31 de janeiro de 2025, a Divisão Norte-Americana da Igreja Adventista do Sétimo Dia publicou uma declaração intitulada An Appeal for Human Dignity and Decency — “Um Apelo pela Dignidade Humana e pela Decência”.
A denominação declarou apoiar os direitos das pessoas independentemente de seu país de origem e pediu tratamento justo aos imigrantes e refugiados nos Estados Unidos. Essa não foi a primeira manifestação da Igreja. Em 2017, o Conselho Consultivo Hispânico da Divisão Norte-Americana aprovou formalmente uma “Chamada à Compaixão pelo Imigrante”.
Entre outras coisas, a liderança adventista hispânica declarou que a Igreja possui uma responsabilidade moral de cuidar das pessoas desfavorecidas, manifestou apoio à manutenção das famílias unidas e pediu às igrejas e escolas adventistas que criassem ambientes de acolhimento e segurança.
E há também a ADRA. A Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais é o braço humanitário da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Seu trabalho com refugiados é significativo e não pode, com justiça, ser ignorado.
Em junho de 2026, apenas dois meses antes da carta sobre o TPS, a ADRA reafirmou publicamente seu compromisso com refugiados e famílias deslocadas. A ADRA também participou de iniciativas internacionais relacionadas a refugiados e relatou programas humanitários destinados a refugiados, deslocados internos, pessoas apátridas e comunidades receptoras em diferentes partes do mundo.
Portanto, as evidências demonstram que entidades adventistas realizam trabalho em favor de imigrantes, refugiados e populações vulneráveis. Mas isso não elimina uma pergunta importante.
Onde estava a voz adventista neste caso específico?
Se a Igreja Adventista já declarou que os imigrantes merecem dignidade e tratamento justo; se a liderança adventista já afirmou que as famílias devem permanecer unidas; se a ADRA defende publicamente refugiados; e se as próprias congregações adventistas incluem pessoas afetadas pelo TPS; então:
Onde estava a voz adventista neste apelo específico em defesa de aproximadamente 170 mil beneficiários salvadorenhos do TPS?
Essa é uma pergunta legítima. Até o momento, os materiais publicados não demonstram se a Associação Geral, a Divisão Norte-Americana, a ADRA, alguma União ou Associação adventista foi convidada a assinar a carta.
Também não demonstram que líderes adventistas deliberadamente decidiram permanecer em silêncio. E não demonstram que a Igreja se opôs à prorrogação do TPS. Portanto, não seria correto afirmar que a liderança adventista se recusou a ajudar quando não se sabe sequer se ela foi convidada a participar.
Mas o resultado final é conhecido:
Há 271 signatários registrados no documento, e nenhuma organização identificável como Adventista do Sétimo Dia aparece entre eles.
Esse fato, por si só, é suficiente para justificar a pergunta: por quê?
Dízimos e ofertas: a prestação de contas deve funcionar nos dois sentidos
Todo adventista praticante conhece a ênfase dada à mordomia cristã. Os membros são regularmente lembrados sobre o dízimo. São solicitadas ofertas. Eles financiam as igrejas locais. Ajudam a sustentar Associações, escolas, campanhas evangelísticas, missionários, ministérios e projetos humanitários. Eles dão dinheiro. Dão seu tempo. Trabalham como voluntários. São incentivados a permanecer fiéis à instituição e à sua missão. Não há nada necessariamente errado nisso.
Instituições religiosas precisam de recursos financeiros para funcionar, assim como hospitais, universidades, organizações beneficentes e qualquer outra grande instituição. Mas a prestação de contas não pode funcionar em apenas uma direção.
Se uma Igreja pode perguntar: “Nossos membros estão sendo fiéis na devolução dos dízimos?”
os membros também têm o direito de perguntar: “Nossa Igreja está sendo fiel no uso de sua voz institucional quando pessoas de nossa comunidade estão vulneráveis?”
Isso não é rebeldia. Isso é prestação de contas.
Imagine ser um adventista salvadorenho beneficiário do TPS
Imagine uma pessoa que frequenta uma igreja adventista nos Estados Unidos há vinte anos. Ela devolve o dízimo. Sua família entrega ofertas. Seus filhos frequentaram a Escola Sabatina. Talvez tenham estudado em uma escola adventista. Ela foi voluntária na igreja. Apoiou campanhas evangelísticas. Apoiou a ADRA.
Ouviu repetidamente sermões sobre cuidar do estrangeiro, ajudar os vulneráveis e amar o próximo. Agora, sua proteção legal pode desaparecer. Sua autorização de trabalho pode ser afetada. Sua família se pergunta se continuará unida. Ela vê bispos católicos se manifestando publicamente. Vê ordens religiosas católicas falando. Vê metodistas falando. Presbiterianos. Episcopais. Menonitas. Quakers. Organizações judaicas. Outras instituições religiosas. Então ela procura pelo nome de sua própria denominação. Ele não está lá.
Seria irracional perguntar: “Onde está a minha Igreja?”
Não parece ser uma pergunta irracional. Isso não significa exigir que uma Igreja se transforme em partido político
Há uma objeção óbvia. Igrejas deveriam pregar o Evangelho e evitar política. Essa preocupação merece respeito.
Uma instituição religiosa deve ser extremamente cuidadosa para não se transformar em um braço do Partido Democrata ou do Partido Republicano. Mas existe uma diferença entre partidarismo e atuação moral perante o poder público.
A própria Igreja Adventista reconhece essa distinção. Ela mantém uma ampla estrutura de Assuntos Públicos e Liberdade Religiosa justamente porque, em determinadas situações, políticas governamentais afetam seres humanos de maneira que exige uma manifestação da Igreja.
Historicamente, os adventistas têm sido particularmente ativos ao dialogar com governos quando a liberdade religiosa está ameaçada. Essa história gera uma pergunta desconfortável, mas necessária:
Se o adventismo organizado considera apropriado procurar governos para defender a liberdade religiosa, em quais situações também deveria procurar o governo para defender imigrantes vulneráveis e suas famílias?
Pode haver divergências razoáveis sobre a resposta.
Mas a resposta não pode seriamente ser: “A Igreja nunca se envolve com políticas públicas.” Ela já se envolve. A ausência de uma assinatura não prova uma posição contrária
Prorrogar o TPS não é automaticamente a única posição moralmente aceitável. O TPS é, por definição, temporário. O governo possui interesse legítimo em determinar se as condições previstas em lei que originalmente justificaram a proteção continuam existindo. Pessoas razoáveis podem discordar sobre se as condições em El Salvador atendem a esses requisitos em 2026.
Um líder religioso poderia preocupar-se profundamente com os imigrantes e ainda assim discordar de algumas das conclusões jurídicas ou políticas apresentadas na carta da CLINIC. Essa possibilidade importa.
Não assinar uma única carta de advocacy não prova que uma pessoa ou denominação seja contrária aos imigrantes. Da mesma forma, aparecer na carta não torna automaticamente outra instituição religiosa moralmente superior.
A questão aqui é visibilidade institucional e responsabilidade, não uma competição para decidir qual denominação é “mais cristã”.
O que os fatos permitem afirmar
Após examinar as informações disponíveis, alguns pontos estão claramente estabelecidos. 97 organizações religiosas e 174 líderes religiosos assinaram o apelo de 21 de agosto de 2026.
Aproximadamente 170 mil beneficiários salvadorenhos do TPS podem ser afetados pela proximidade da data de expiração. Nenhuma organização identificada como Seventh-day Adventist, SDA ou ADRA aparece no documento público dos signatários.
A Igreja Adventista do Sétimo Dia já se manifestou publicamente em favor da dignidade e do tratamento justo de imigrantes e refugiados. A ADRA realiza trabalho humanitário significativo em favor de refugiados e pessoas deslocadas.
Ao mesmo tempo, as informações disponíveis não permitem afirmar que a Igreja Adventista tenha sido convidada a assinar a carta e recusado. Também não demonstram que a liderança adventista se oponha à prorrogação do TPS para El Salvador. Não demonstram que nenhum adventista individual apoiou a iniciativa. E não demonstram que a Igreja Adventista nada faça pelos imigrantes. Essas distinções são importantes.
Perguntas legítimas continuam legítimas
Os fatos devem proteger qualquer instituição de acusações injustas. Mas não devem protegê-la de perguntas legítimas.
E a pergunta permanece simples:
Por que, entre 271 signatários religiosos publicamente identificados defendendo os beneficiários salvadorenhos do TPS, não há representação adventista identificável?
Talvez exista uma explicação perfeitamente razoável.
Se existir, a liderança adventista deveria ser capaz de fornecê-la. Talvez também exista alguma outra iniciativa adventista em favor dos salvadorenhos com TPS que simplesmente não tenha recebido grande divulgação. Se existir, ela merece ser identificada e reconhecida.
Mas membros de uma instituição religiosa também têm o direito de perguntar onde sua instituição emprega sua voz pública e sua influência. Uma Igreja que pede fidelidade aos seus membros deve estar preparada para que seus membros também peçam fidelidade à Igreja.
- O dízimo merece prestação de contas.
- As ofertas merecem prestação de contas.
- A liderança merece prestação de contas.
E, quando vidas e famílias de imigrantes estão sendo afetadas, a influência institucional também merece prestação de contas.
A assinatura que não está lá
Existe algo poderoso em colocar o próprio nome abaixo de uma declaração pública. Isso cria responsabilidade. As 97 organizações e os 174 líderes religiosos que assinaram a carta de 21 de agosto escolheram ser contados. Se sua posição convencerá ou não o governo Trump ainda não sabemos. Se seus argumentos jurídicos e factuais serão aceitos pelo DHS também permanece incerto. Mas a posição deles não é incerta.
Eles colocaram seus nomes no documento.
Quando se procura entre esses nomes por uma voz identificável da Igreja Adventista do Sétimo Dia, nenhuma aparece.
- Isso não prova indiferença.
- Não prova hipocrisia.
- Não apaga o trabalho humanitário da ADRA.
- Não apaga declarações anteriores da Igreja Adventista em defesa de imigrantes.
Mas nenhum desses fatos deve impedir membros adventistas de fazer uma pergunta perfeitamente legítima:
Quando 271 vozes religiosas estiveram dispostas a dizer publicamente “protejam essas famílias”, onde estava a nossa?
Isso não é uma acusação. É uma pergunta.
E talvez a Igreja Adventista do Sétimo Dia devesse respondê-la.
Fontes
OSV News, “More than 270 faith leaders urge Trump administration to extend TPS for El Salvador”, 25 de agosto de 2026.
Catholic Legal Immigration Network — CLINIC, “Request to Extend Temporary Protected Status for El Salvador”, carta original de 17 páginas, datada de 21 de agosto de 2026.
North American Division of Seventh-day Adventists, “An Appeal for Human Dignity and Decency”, 31 de janeiro de 2025.
North American Division of Seventh-day Adventists, “A Call to Compassion Toward the Immigrant: A Voted Statement”, declaração aprovada pelo Hispanic Advisory.
Adventist News Network / Lake Union, reportagens de 2026 sobre a insegurança migratória afetando congregações adventistas e beneficiários do TPS.
ADRA International, declaração do World Refugee Day 2026 e informações sobre seu trabalho com populações deslocadas.
Nota editorial
Este artigo analisa a ausência de representação identificável da Igreja Adventista do Sétimo Dia em uma carta específica de advocacy datada de 21 de agosto de 2026.
Ele não afirma que a Igreja Adventista do Sétimo Dia, seus membros ou a ADRA não auxiliam imigrantes ou refugiados. As evidências disponíveis demonstram que entidades adventistas realizam esse tipo de trabalho.
Também não há evidência disponível que demonstre se uma instituição adventista foi convidada a assinar a carta, se recusou participar ou sequer tinha conhecimento da iniciativa antes de sua publicação.
Essas distinções são essenciais para uma análise responsável.
Autores
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Com quase três décadas de experiência jurídica, o Dr. Witer DeSiqueira é sócio da Witer DeSiqueira & Pessoni Law e um dos pilares estratégicos do escritório. Detentor de dupla cidadania (Brasil/EUA) e com uma trajetória de quase 20 anos como District Attorney na Califórnia, reúne uma vivência singular e aprofundada do sistema legal norte-americano. Sua atuação concentra-se em casos complexos de imigração e negócios internacionais, conduzidos com precisão técnica e visão estratégica. À frente de um escritório reconhecido internacionalmente, lidera uma operação marcada por excelência, segurança jurídica e resultados consistentes, refletidos em premiações como o The Law Awards 2026 e a Certificação Q-ESG. Sua prática posiciona o escritório na vanguarda da mobilidade global.





